sexta-feira, 16 de março de 2012

Apelo
Dalton Trevisan

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.
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Penélope
Na rua de casas iguais morava, há muitos anos, um casal de velhos. Ela o esperava, costurando na cadeira de embalo da varanda e, quando ele vinha pela rua, com um pacote no braço, descia, de chinelos, os dois degraus da varanda e lhe sorria, com o portão aberto. Cruzavam o pequeno jardim e, apenas na porta, por causa dos vizinhos, mas ainda antes de entrar, ela lhe erguia a cabeça, sem nenhum fio branco, e ele a beijava na testa. Estavam sempre juntos, lidando no seu quintal, ele com as couves, ela com sua coleção de cactos. Quando deixavam aberta a porta da cozinha, os vizinhos podiam ver que ele enxugava a louça para a mulher. E, aos sábados, saíam para o seu passeio diante das vitrinas, ela, gorda, ainda bonita, de olhos azuis e ele, magro, baixo, de preto. Nas noites de verão, ela usava vestidos brancos, de pernas nuas, ele não, sempre de preto. Havia um mistério na vida deles, que nenhum vizinho conhecia. Sabia-se vagamente que os filhos tinham morrido num desastre, há muitos anos. O casal de velhos abandonou tudo, casa, túmulos, bichos e se mudara para aquela cidade, naquela rua. Eram os dois, sem cão, gato, passarinho, nem mesmo galinhas. Tinham medo de se afeiçoar a qualquer coisa. Algumas vezes, na ausência do marido, ela trazia ossos para os cães vagabundos que cheiravam o portão. Quando engordavam uma galinha, a mulher se enternecia por ela e não tinha coragem de matá-la. Então, o velho desmanchou o galinheiro e, no seu lugar, plantou uns pés de couve. Arrancou a única roseira que crescia num canto do jardim; nem a uma rosa se atreviam a dar os seus restos de amor.

Afora a viagem, que faziam uma vez por ano para visitar o túmulo dos filhos, não saíam de casa, o velho fumando seu cachimbo, a velha trançando as agulhas de tricô, a não ser no seu clássico passeio dos sábados. E foi num sábado que, ao abrir a porta, eles acharam a seus pés, uma carta. Era estranho, porque ninguém lhes escrevia, os dois sozinhos no mundo, e confabularam antes de se decidir a abri-la. Era um envelope azul, sem qualquer endereço. A mulher propôs rasgá-lo, sem ler. Já tinham sofrido demais. Ele respondeu que ninguém podia mais fazer-lhes mal. Não queimou a carta, não se apressou de abri-la, deixou-a sobre a mesa. Sentaram-se um diante do outro, sob o abajur azul da sala, ela com seu tricô, ele com seu jornal. As vezes, ela curvava a cabeça, mordendo uma agulha na boca e com a outra contando os pontos. Quando cbegava ao fim, tinha de contar a linha de novo: pensava na carta sobre a mesa. O homem lia com o jornal dobrado, no joelho, e leu duas vezes cada linha para entendê-la: pensava na carta sobre a mesa. O seu cachimbo apagou, não o acendeu, os olhos parados na mesma notícia, ouvindo apenas o seco bater das agulhas entre os dedos da mulher. Então, pegou a carta e abriu-a. Achou um pedaço de papel dobrado, com duas palavras: cOrNo MaNsO, escritas com grandes letras recortadas de jornal. Nada mais, data ou assinatura. Entregou o papel à mulher que, depois de ler, o olhou. Nenhum falou. A mulher se ergueu, segurando a carta na ponta dos dedos. Onde é que você vai? o homem perguntou. Queimar... ela respondeu. Não, ele disse. Dobrou o papel dentro do envelope azul e guardou-o no bolso. Juntou para a mulher a toalhinha que tinha caído no chão e continuou a ler o jornal e em cada linha, aquela noite, leu as duas palavras da carta.

Não estava mais certo de que ninguém podia fazer-lhes mal. Antes da mulher se erguer e guardar a cestinha com os fios e as agulhas, segurou-lhe a mão para consolá-la: aposto, minha velha, disse, que a mesma carta foi jogada sob a porta de todas as casas da rua. As vozes das sereias cantam ainda no coração dos velhos? Nem mesmo um pobre casal de velhos estava a salvo. Haviam-lhes tirado os filhos, os bichos, a cidade. Agora, queriam separá-los um do outro.

O homem esqueceu a carta no bolso e passou-se outra semana. No sábado, de volta do seu passeio, antes de abrir a porta, sabia que ela estava ali, azul sobre o capacho. A mulher pisou na carta, fingindo que não a via. Ele a juntou e guardou no bolso. Quase no fim do serão, sem erguer a cabeça da toalhinha, contando sempre a mesma linha, ela perguntou: você não vai ler a sua carta? Olhava-a, fingindo que lia o jornal, admirando-lhe a bela cabeça, sem nenhum cabelo branco, os olhos que, apesar dos anos, eram azuis como no primeiro dia. Eu já sei o que diz, ele respondeu. Então por que não a queima? É um jogo, minha velha, disse, mostrando o envelope azul entre os dedos: nenhum sobrescrito e fechado. Rasgou-o numa ponta e tirou o papel dobrado: duas palavras, as mesmas, nas letras recortadas de jornal. Soprou o envelope, sacudiu-o sobre o tapete, mais nada. A mulher tricoteava, como se não visse a carta. Ele a guardou no bolso, com a outra e continuou a ler em cada linha do jornal aquelas duas palavras. Ela não lhe perguntou, como se soubesse. Tinha o rosto oculto pela sombra do abajur. O homem reparou que ela desmanchava um ponto errado na toalhinha. Eram os dedos que tricoteavam ou as mãos que tremiam?

Ele acordou com dor de cabeça, no meio da noite, levantou-se da cama e foi beber água no filtro. Afastou a cortina e, na rua deserta, viu na sombra dum muro, o vulto daquele homem. Ficou ali, com a mão crispada na cortina, até o homem ir-se embora. Deitou-se, de costas para a mulher, (sabia que estava acordada e de olhos abertos para ele), imaginando quem seria o homem na sombra do muro. E pensou, pela primeira vez, se a carta não podia ser para ele mesmo.

De manhã, esqueceu a idéia e, deitado na cama, observava de olhos meio fechados a mulher, que se vestia para ir às compras. Diante do guarda-roupa, ela escolhia um vestido. Os seus vestidos brancos a deixavam mais gorda. Esperou-o para tomarem café juntos, como todas as manhãs e, quando ela fechou a porta, foi olhá-la pela janela. Era ela mesma, a sua mulher. O homem se sentiu envergonhado e fechou os olhos, dizendo: minha velha, me perdoe... Quando os abriu, notou que a mulher olhava para a janela, ainda que não pudesse vê-lo, atrás da cortina. Por que olhara a janela? Para dar-lhe adeus, se ele ali estivesse ou para saber se desconfiava dela?

No sábado seguinte, quis propor-lhe ficarem em casa, de luzes apagadas e surpreenderem o autor das cartas. Ao vê-la tão alegre, porque iam passear, não teve coragem e saíram. Durante o passeio pensou o tempo todo se era apenas ele que recebia as cartas. Não podia abordar um dos vizinhos no portão e perguntar-lhe aquilo. As casas da rua, de aluguel, eram todas iguais. Podia ser engano, o envelope não tinha endereço. Se, ao menos citasse nomes, horas, lugares... Quando abriu a porta, lá estava ela: a carta azul. Desta vez, não a leu diante da mulher. Guardou-a no bolso, junto com as outras e pôs-se a ler o seu jornal, sob o abajur. Quando virava as páginas, surpreendia o rosto da mulher debruçado sobre as agulhas. Era uma toalhinha difícil, porque há meses trabalhava nela. Como se lesse no jornal, ele lhe contou a história de Penélope, que desfazia de noite, à luz das velas, as linhas trançadas durante o dia, para ganhar tempo dos seus pretendentes, esperando a volta do senhor seu marido. Pela primeira vez, pensou se Penélope não teria enganado ao marido ausente. Para quem era a mortalha que ela bordava? Teria continuado a trançar suas agulhas após a volta de Ulisses? Homero não fala. Nem a mulher, que não perguntou sobre a carta.

No banheiro, fechando a porta à chave, abriu a carta. As duas palavras... Ele tinha o seu plano: guardou a carta no envelope e dentro dela um fio de cabelo. Pendurou o paletó no cabide, com a carta visível num dos bolsos. Foi-se deitar, enquanto a mulher punha o saco de pão na janela e a garrafa vazia de leite na porta. No dia seguinte, após o café, quando ela saiu, com a sacola das compras no braço, examinou a carta: estava no mesmo lugar, parecia intacta. Abriu-a e procurou o pequeno fio de cabelo, não estava mais.

Então, revolveu no fundo das gavetas. Não tinha tempo, ela voltaria logo. No emprego, imaginava os passos de sua mulher pela casa. Quando a encontra no portão descobre nos seus olhos o reflexo da gravata azul do outro. Observando-a, de manhã, na penumbra do quarto, suspeita que as sombras no seu gordo corpo nu são de abraços do outro. Ele quer erguer-lhe o cabelo da nuca para ver se não tem a tatuagem dos dentes do outro. Na sua ausência, abre o guarda-roupa da mulher, cobre a cabeça com seus vestidos e cheira-os. Espreita os homens que passam diante da casa, atrás da cortina. Conhece agora o leiteiro e o padeiro, jovens, de olhos falsos.

Pode contar, na volta do emprego, quais foram os passos da mulher pela casa: se os móveis têm pó ou não, se a terra nos vasos de flores está molhada ou seca... Ele marca o tempo pela toalhinha. Sabe quantas linhas a mulher tricoteou. Sabe quando ela erra os pontos e deve desmanchá-los, antes mesmo de contá-los com a ponta da agulha.

Nada tem contra ela e o homem ficou silencioso. Come de cabeça baixa, sem falar. Lê o seu jornal, de noite e, em vez de ler para a mulher as notícias divertidas, como antes, lê apenas em voz alta as histórias de crimes. Enquanto lê, vigia o rosto curvado da mulher, na sombra azul do abajur. Se ouve passos de noite na calçada vai espreitar pela janela, de pijama e pés descalços; a cortina está amarrotada no canto pela sua mão crispada.

Houve somente uma cena entre eles, quando comprou um revólver. Ele o guardou sobre o guarda-roupa da mulher. Ela perguntou: você está louco, meu velho? Para que um revólver? Há muito ladrão nesta cidade. E olhou como se ela fosse um ladrão. Meu Deus, a mulher gemeu, você não pensa que eu... e quis abraçá-lo, com as mãos estendidas, quando o homem, para desvencilhar-se, empurrou-a e, como não o soltasse, lhe golpeou o rosto com toda a força. Ela cobriu o rosto com uma das mãos e com a outra pegou a sua, ainda fechada. Pensou que fosse mordê-lo. Ela lhe beijou a mão, antes que pudesse retirá-la. O homem sentiu pena, mas não lhe pediu perdão. Foi a única cena e, depois dela, a mulher aceitou tudo.

Ele quer saber o destino de velhos presentes, de jóias sem valor (desconfia que o outro é moço, ela deve dar-lhe presentes). Quem sabe, faça toalhinhas de tricô, para o outro vender. No serão, os dois sob o abajur, em vez de ler o jornal, vigia a mulher - o rosto, o vestido, as mãos - atrás dos dedos do outro. Crava-lhe os olhos na mão (as mãos que acariciam e não têm memória dos carinhos) até que ela erra o ponto, tem que desmanchar a linha.

Às vezes, quando chega em casa ela não o espera mais no portão, (porque finge não vê-la e passando por ela sobe os dois degraus, como se estivesse ali no portão à espera do outro) a casa está silenciosa, ele aspira os odores no ar, passa a mão sobre os móveis, apalpa entre os dedos a terra dos vasos. Adivinha onde a mulher está. Esconde-se dele, nos cantos escuros da casa e dá-lhe as costas, para que não veja os seus olhos vermelhos. Eram olhos azuis que sorriam a vida inteira para ele. Estão vermelhos de chorar pelo outro, por não ter podido vê-lo.

Uma noite, acordou e achou o outro travesseiro vazio, ainda quente da cabeça da mulher. Sob a porta, viu uma luz na sala. Pé ante pé, agarrou o revólver sobre o guarda-roupa e abriu de súbito a porta. Sob o abajur, a mulher fazia o seu tricô - sempre a toalhinha para a mesa da sala. Era ela Penélope, desfazendo na noite o trabalho executado de dia? Tecia a mortalha para o marido antes de casar-se com o outro?

Erguendo os olhos da toalhinha, viu o revólver na mão do homem, mas não disse nada. As suas agulhas batiam uma na outra, embora não tricoteasse e estivesse olhando para o homem. Ele voltou para o quarto, fechando a porta, não sabia por que não a matava.

No meio de uma refeição, ele a interroga sobre seus velhos namorados, do tempo de solteira, de um primo que queria casar com ela. Ela responde, enquanto ele aprova com a cabeça, fumando seu cachimbo, de olhos meio fechados. Agora sabe, tem todas as provas: ela o enganava com o primo. Se não fosse culpada, protestaria, fugiria de casa. Mas não: ouve tudo, conta tudo. Se ela se contradiz, corrige-a batendo com a ponta do cachimbo apagado no seu prato.

— Mas faz tanto tempo, meu...

Não tem coragem de chamá-lo "meu velho". Enquanto ela vai, com sua sacola, de cabeça baixa, fazer suas compras, o velho revolve as cinzas do fogão, para saber se ela queima os bilhetes do outro.

De súbito, no meio da leitura em voz alta de um crime, ele tira as cartas do bolso - são muitas, uma de cada sábado - e lê, uma por uma, como se fossem todas diferentes. Guarda-as de novo no bolso, porque não se separa delas, e prossegue a leitura do jornal em voz alta.

Achou, numa caixa de sapatos, cheia de fotografias, uma dela, menina, com o primo, o outro. Ele colocou a fotografia sobre a mesa da sala, de pé, contra um vaso de cacto. Assim que a mulher abriu a porta, olhou para a mesa e viu a fotografia. Ela começou a chorar. Tinha pacotes nas mãos e não podia esconder as lágrimas, nem enxugá-las. Olhava para o homem e para a fotografia, e chorava. Ela nada disse, aquelas lágrimas eram de culpada. O homem se deu por satisfeito. Eram provas que reunia, queria ser justo.

O passeio aos sábados era seu único vício de velhos. Ela se arrumava, punha seu melhor vestido, seu chapéu fora de moda. Fumando seu cachimbo atrás da janela, deixou-a que se arrumasse. Ela sentou-se na poltrona da sala, com seu chapéu de flores na cabeça, a bolsa no braço, e ficou esperando. Não se virou, enquanto ela esperava, com as mãos cruzadas. Ele então se voltou, olhou o chapéu, a bolsa, as mãos vazias da toalhinha e disse:

— Meu Deus, que chapéu feio... Não posso sair na rua com uma mulher que usa um chapéu desses!

Abriu o jornal e começou a ler as notícias policiais em voz alta, enquanto a mulher ouvia, sem tirar o chapéu, já com o tricô na mão. Aquele sábado não veio nenhuma carta. Foi até a porta, abriu-a, olhou para o capacho e para a mulher. Era vigiado, ele também, o corno manso, pelo outro. Sentia falta daquela carta. Era uma correspondência inteligente entre outro e ele, um jogo, como tinha dito uma vez à mulher. Um dia, o outro revelaria tudo, era preciso não interromper as cartas. Então, continuaram a sair nos sábados.

Eles saem, dá o braço à mulher no portão e não falam durante todo o passeio, passam diante das vitrinas sem parar. Como é gorda, ela cansa mais depressa, mas não se queixa, nem ele diminui o passo. Na volta, sob a porta, junta a carta azul e, antes de abri-la, passeia com ela na mão pela casa, pára diante da mulher, de rosto azul sob o abajur. Ele a lê escondido, de porta fechada, no banheiro, e guarda com um cabelo no envelope e deixa sobre a mesa. Em todas encontra depois o cabelo, a mulher nunca mais leu as cartas. Ou - ele pensa, com uma nova ruga na testa - descobriu o seu segredo e lê as cartas substituindo o cabelo por um dos dela?

Uma tarde, de volta do emprego, abriu a porta e aspirou o ar, como fazia antes de entrar. Passou a mão no canto dos móveis: pó. Apalpou a terra dos vasos: seca. O coração batia na ponta dos pés, enquanto avançava pela casa. Entrou, ante pé, no quarto escuro e acendeu a luz: a mulher estava deitada na cama de casal, de chapéu de flores na cabeça, a bolsa no braço, segurando o revólver na mão direita. Ele não pôde fechar os seus olhos, outra vez azuis. Eles sorriam de novo para o velho.

Não sentiu piedade, estava vingado. Chamou a polícia que o deixou em paz, estava no emprego na hora em que a mulher se suicidou. Quanto o enterro saiu, os vizinhos repararam que, embora fosse um casal tão unido de velhos, ele não chorou nenhuma vez. Segurou na alça do caixão e ajudou a empurrá-lo no túmulo, (como fazem os velhos, ele o tinha construído há anos) e antes mesmo de o pedreiro, erguer a sua parede de tijolos, ele deu as costas para a mulher e foi-se embora.

Quando entrou em casa, reparou em qualquer coisa estranha: a toalhinha sobre a mesa era nova. Era a toalhinha de tricô! A mulher esperou terminar a toalhinha antes de se matar. Ela trançara sua própria mortalha. Penélope concluiu sua obra, o marido chegou em casa. Ele a tocou, na ponta dos dedos, estava lavada e engomada. Não tinha mancha de lágrimas, nem ruga de dedos trêmulos. Acendeu a lâmpada do abajur azul. Sobre a poltrona da mulher, diante da sua, vê as agulhas de tricô cruzadas na sua cestinha.

Era sábado, o velho pensou. Nada tinha a recear, nenhuma carta chegaria. Ninguém mais podia fazer-lhe mal. A mulher estaca morta, pagara pelo seu crime. E, então, pensou que a mulher podia ser inocente. A carta poderia ser jogada sob todas as portas da rua. Ou ser atirada sob a sua porta, por engano, eram todas as casas iguais. Havia um meio de saber: se fossem destinadas a ele, com a mulher morta, não viriam nunca mais. Não as acharia sob a porta, encostadas no capacho. Aquela fora a última: o outro teria visto, de tarde, a casa de portas e janelas abertas para sair o enterro. Teria visto ao crepúsculo o carro funerário saindo do portão. Teria seguido, ninguém sabe, o enterro, era um dos que o acotovelavam para ver o caixão entrar, rangendo sobre os grãos de areia, no túmulo.

O velho saiu de casa. Andava com um braço dobrado, pelo hábito de dá-lo à mulher por tantos anos. Diante de uma vitrina de vestidos, alguns brancos, sentiu no braço a mão de sua mulher. Ele tinha razão, aquela carta fora a última. Nunca mais viria outra. Subiu os dois degraus da escadinha, parando com o pé no ar diante da porta. Eu fui justo, ele se disse e abriu a porta para ver a carta azul.
A ANÃ PRÉ-FABRICADA E SEU PAI, O AMBICIOSO MARRETADOR
Era uma vez uma anã pré-fabricada. Tinha cinquenta centímetros de altura. Os pais eram pessoas normais. A anã era anã porque desde pequena o pai batia com a marreta na cabeça dela. Ele batia, e dizia: "Diminua, filhinha". O sonho do pai era ter uma filha que trabalhasse no circo. E se ele conseguisse uma anã, o circo aceitaria.
Assim, a menina não cresceu. Tinha as pernas tortas, a cabeça plana como mesa, os olhos esbugalhados. Um globo, com as marretadas, chegara a sair. E deste modo o olho andava dependurado pelos nervos. Com o olho caído, a menina enxergava o chão - e enxergava bem. Por isso, nunca deu topadas.
A menina diminuiu, entrou para a escola, se diplomou. E o pai esperando que o circo viesse para a cidade. A anã teve poucos namorados na sua vida. Os moços da cidade não gostavam de sua cabeça plana como mesa. Um dos namorados foi um mudo; o outro, um cego.
Com o passar do tempo, o pai ia ensinando à filha anã os truques do circo: andar na corda bamba, atirar facas, equilibrar pratos na ponta de varas, equilibrar bolas, andar sobre roletes, fazer exercícios na barra, pular através de um arco de fogo, cair ao chão (fazendo graça) sem se machucar, ficar de pé no dorso de cavalos.
De vez em quando, o pai emprestava a filha ao padre, por causa da quermesse. Ela substituía o coelho nos jogos de sorteio. Havia uma porção de casinhas dispostas em círculo. Cada casinha tinha um número. A um sinal do quermesseiro, a menina corria e entrava na casinha. Quem tivesse aquele número ganhava a prenda. A anã não gostava da quermesse porque se cansava muito e também porque no dia seguinte ficava triste, com o pessoal que tinha perdido. Eles a seguiam pela rua, gritando: "Aí, baixinha,..., por que não entrou no meu número?".
Um dia, o circo chegou à cidade, com lona colorida, um elefante inteirinho rosa, uma onça pintada, palhaços, cartazes e uma trapezista gorda que vivia caindo na rede. O pai mandou fazer para a anã um vestido de cetim vermelho, com cinto verde. Comprou um sapato preto e meias três-quartos. Levou a filha ao circo. Ela mostrou tudo o que sabia, mas o diretor disse que faziam aquilo: andavam no arame, na corda bamba, equilibravam coisas, pulavam através de arcos de fogo, andavam no dorso de cavalos. Só havia uma vaga, mas esta ele não queria dar para a menina, porque estava achando a anã muito bonitinha. Mas o pai insistiu e a anã também. Ela estava cansada da vida da cidadezinha, onde o povo só via televisão o tempo inteiro. E o dono do circo disse que o lugar era dela: a anã seria comida pelo leão, porque andava uma falta de carne tremenda. E, assim, no dia seguinte, às seis horas, a menina tomou banho, passou perfume Royal Briar, jantou, colocou seu vestido vermelho, de cinto verde, uma rosa na cabeça e partiu contente para o emprego.
(Ignácio de Loyola Brandão)
MISSA DO GALO - Machado de Assis

NUNCA PUDE entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, ne grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
— Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? pergun-tou-me a mãe de Conceição.
— Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
— Ainda não foi? perguntou ela.
— Não fui, parece que ainda não é meia-noite.
— Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
— Não! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer Já disse que ela era boa, muito boa.
— Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
— Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho!
Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
— Quando ouvi os passos estranhei: mas a senhora apareceu logo.
— Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
— Justamente: é muito bonito.
— Gosta de romances?
— Gosto.
— Já leu a Moreninha?
— Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
— Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que
você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
"Talvez esteja aborrecida", pensei eu.
E logo alto:
— D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
— Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
— Já tenho feito isso.
— Eu, não, perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
— Que velha o que, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
— É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
— Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.
A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia, contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
— Mais baixo! mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras.
Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido: cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou, trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:
— Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve, se acordasse agora, coitada, tão cedo não
pegava no sono.
— Eu também sou assim.
— O quê? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
— Há ocasiões em que sou como mamãe, acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada.
— Foi o que lhe aconteceu hoje.
— Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela rnissa Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
— Mais baixo, mais baixo. . .
Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver rnelhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
— Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
— São bonitos, disse eu.
— Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
— De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
— Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso, mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no me oratório.
A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo.
Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
— Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, — não posso dizer quanto, — inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galol"
— Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
— Já serão horas? perguntei.
— Naturalmente
— Missa do galo! — repetiram de fora, batendo.
— Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus até amanhã. E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.

Aula III - Contos

A Causa Secreta, de Machado de Assis
Fonte:
ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística
(http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html)
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A Causa Secreta
GARCIA, EM PÉ, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de
balanço, olhava para o tecto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um
trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada.
Tinham falado do dia, que estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o
casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os
três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de
contar a história sem rebuço.
Tinham falado também de outra cousa, além daquelas três, cousa tão feia
e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da
casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora
mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há
no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em
verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é
preciso remontar à origem da situação.
Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860,
estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à
porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a
figura; mas, ainda assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo
encontro, poucos dias depois. Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas
raras distrações era ir ao teatro de S. Januário, que ficava perto, entre essa
rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês, e nunca achava acima de
quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até
aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali
Fortunato, e sentou-se ao pé dele.
A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e
remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances
dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um
personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça
reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas
Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi
pelo beco do Cotovelo, rua de S. José, até o largo da Carioca. Ia devagar,
cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que
dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando. No largo da Carioca entrou
num tílburi, e seguiu para os lados da praça da Constituição. Garcia voltou
para casa sem saber mais nada.
Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em
casa, quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sótão, onde
morava, ao primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra.
Era este que alguns homens conduziam, escada acima, ensangüentado. O
preto que o servia acudiu a abrir a porta; o homem gemia, as vozes eram
confusas, a luz pouca. Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era
preciso chamar um médico.
— Já aí vem um, acudiu alguém.
Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou
que seria parente ou amigo do ferido; mas rejeitou a suposição, desde que
lhe ouvira perguntar se este tinha família ou pessoa próxima. Disse-lhe o
preto que não, e ele assumiu a direção do serviço, pediu às pessoas estranhas
que se retirassem, pagou aos carregadores, e deu as primeiras ordens.
Sabendo que o Garcia era vizinho e estudante de medicina pediu-lhe que
ficasse para ajudar o médico. Em seguida contou o
que se passara.
— Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de Moura, onde fui
visitar um primo, quando ouvi um barulho muito grande, e logo depois um
ajuntamento. Parece que eles feriram também a um sujeito que passava, e
que entrou por um daqueles becos; mas eu só vi a este senhor, que
atravessava a rua no momento em que um dos capoeiras, roçando por ele,
meteu-lhe o punhal. Não caiu logo; disse onde morava e, como era a dois
passos, achei melhor trazê-lo.
— Conhecia-o antes? perguntou Garcia.
— Não, nunca o vi. Quem é?
— É um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouvêa.
— Não sei quem é.
Médico e subdelegado vieram daí a pouco; fez-se o curativo, e tomaramse
as informações. O desconhecido declarou chamar-se Fortunato Gomes da
Silveira, ser capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A ferida foi
reconhecida grave. Durante o curativo ajudado pelo estudante, Fortunato
serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada,
olhando friamente para o ferido, que gemia muito. No fim, entendeu-se
particularmente com o médico, acompanhou-o até o patamar da escada, e
reiterou ao subdelegado a declaração de estar pronto a auxiliar as pesquisas
da polícia. Os dous saíram, ele e o estudante ficaram no quarto.
Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente,
estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no
ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a
expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba,
por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara. Teria
quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e
perguntava alguma coisa acerca do ferido; mas
tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A
sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de
curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara
dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar
o coração humano como um poço de mistérios.
Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a
cura fez-se depressa, e, antes de concluída, desapareceu sem dizer ao
obsequiado onde morava. Foi o estudante que lhe deu as indicações do
nome, rua e número.
— Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o
convalescente.
Correu a Catumbi daí a seis dias. Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu
impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e
acabou batendo com as borlas do chambre no joelho. Gouvêa, defronte dele,
sentado e calado, alisava o chapéu com os dedos, levantando os olhos de
quando em quando, sem achar mais nada que dizer. No fim de dez minutos,
pediu licença para sair, e saiu.
— Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.
O pobre-diabo saiu de lá mortificado, humilhado, mastigando a custo o
desdém, forcejando por esquecê-lo, explicá-lo ou perdoá-lo, para que no
coração só ficasse a memória do benefício; mas o esforço era vão. O
ressentimento, hóspede novo e exclusivo, entrou e pôs fora o benefício, de
tal modo que o desgraçado não teve mais que trepar à cabeça e refugiar-se
ali como uma simples idéia. Foi assim que o próprio benfeitor insinuou a
este homem o sentimento da ingratidão.
Tudo isso assombrou o Garcia. Este moço possuía, em gérmen, a
faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da
análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas
morais, até apalpar o segredo de um organismo. Picado de curiosidade,
lembrou-se de ir ter com o homem de Catumbi, mas advertiu que nem
recebera dele o oferecimento formal da casa. Quando menos, era-lhe preciso
um pretexto, e não achou nenhum.
Tempos depois, estando já formado e morando na rua de Matacavalos,
perto da do Conde, encontrou Fortunato em uma gôndola, encontrou-o ainda
outras vezes, e a freqüência trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato
convidou-o a ir visitá-lo ali perto, em Catumbi.
— Sabe que estou casado?
— Não sabia.
— Casei-me há quatro meses, podia dizer quatro dias. Vá jantar conosco
domingo.
— Domingo?
— Não esteja forjando desculpas; não admito desculpas. Vá domingo.
Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e
boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele
não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as
outras feições não eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se
não resgatavam a natureza, davam alguma compensação, e não era pouco.
Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta,
airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não
passar de dezenove. Garcia, à segunda vez que lá foi, percebeu que entre
eles havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade
moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam
o respeito e confinavam na resignação e no temor. Um dia, estando os três
juntos, perguntou Garcia a Maria Luísa se tivera notícia das circunstâncias
em que ele conhecera o marido.
— Não, respondeu a moça.
— Vai ouvir uma ação bonita.
— Não vale a pena, interrompeu Fortunato.
— A senhora vai ver se vale a pena, insistiu o médico.
Contou o caso da rua de D. Manoel. A moça ouviu-o espantada.
Insensivelmente estendeu a mão e apertou o pulso ao marido, risonha e
agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o coração. Fortunato sacudia
os ombros, mas não ouvia com indiferença. No fim contou ele próprio a
visita que o ferido lhe fez, com todos os pormenores da figura, dos gestos,
das palavras atadas, dos silêncios, em suma, um estúrdio. E ria muito ao
contá-la. Não era o riso da dobrez. A dobrez é evasiva e
oblíqua; o riso dele era jovial e franco.
" Singular homem!" pensou Garcia.
Maria Luísa ficou desconsolada com a zombaria do marido; mas o médico
restituiu-lhe a satisfação anterior, voltando a referir a dedicação deste e as
suas raras qualidades de enfermeiro; tão bom enfermeiro, concluiu ele, que,
se algum dia fundar uma casa de saúde, irei convidá-lo.
— Valeu? perguntou Fortunato.
— Valeu o quê?
— Vamos fundar uma casa de saúde?
— Não valeu nada; estou brincando.
— Podia-se fazer alguma cousa; e para o senhor, que começa a clínica, acho
que seria bem bom. Tenho justamente uma casa que vai vagar, e serve.
Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a idéia tinha-se metido na
cabeça ao outro, e não foi possível recuar mais. Na verdade, era uma boa
estréia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos. Aceitou
finalmente, daí a dias, e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura
nervosa e frágil, padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em
contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a
cabeça. O plano fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade é que Fortunato não
curou de mais nada, nem então, nem depois. Aberta a casa, foi ele o próprio
administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo,
compras e caldos, drogas e contas.
Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da rua D. Manoel
não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem.
Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não
conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a
qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia.
Fortunato estudava, acompanhava as operações, e nenhum outro curava os
cáusticos.
— Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.
A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornouse
familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a
vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que
lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o
agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao
canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso,
entrou-lhe o amor no coração. Quando deu
por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço
que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa
compreendeu ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por
achada.
No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos
olhos do médico a situação da moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia
e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e
cães. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o
laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer. Um
dia, porém, não podendo mais, foi ter com o médico e pediu-lhe que, como
cousa sua, alcançasse do marido a
cessação de tais experiências.
— Mas a senhora mesma...
Maria Luísa acudiu, sorrindo:
— Ele naturalmente achará que sou criança. O que eu queria é que o senhor,
como médico, lhe dissesse que isso me faz mal; e creia que faz...
Garcia alcançou prontamente que o outro acabasse com tais estudos. Se os
foi fazer em outra parte, ninguém o soube, mas pode ser que sim. Maria
Luísa agradeceu ao médico, tanto por ela como pelos animais, que não podia
ver padecer. Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha
alguma coisa, ela respondeu que nada.
— Deixe ver o pulso.
— Não tenho nada.
Não deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao
contrário, que ela podia ter alguma coisa, que era preciso observá-la e avisar
o marido em tempo.
Dois dias depois, — exatamente o dia em que os vemos agora, — Garcia
foi lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele
caminhou para ali; ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa
saía aflita.
— Que é? perguntou-lhe.
— O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.
Garcia lembrou-se que na véspera ouvira ao Fortunado queixar-se de um
rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que
viu. Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre
a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o
polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta
pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento
em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em
seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a
fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia
estacou horrorizado.
— Mate-o logo! disse-lhe.
— Já vai.
E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que
traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira
pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O
miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não
acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e
estendeu a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a
fazê-lo, porque o diabo do homem impunha
medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a
última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com
os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao
descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para
salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida.
Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para
fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer,
quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a
vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação
estética. Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente
esquecido. Isto posto, não estaria fingindo, e devia ser aquilo mesmo. A
chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda
um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortarlhe
o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o
cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue.
Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrouse
enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera
evidentemente era fingida.
"Castiga sem raiva", pensou o médico, "pela necessidade de achar uma
sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste
homem".
Fortunato encareceu a importância do papel, a perda que lhe trazia, perda
de tempo, é certo, mas o tempo agora era-lhe preciosíssimo. Garcia ouvia só,
sem dizer nada, nem lhe dar crédito. Relembrava os atos dele, graves e
leves, achava a mesma explicação para todos. Era a mesma troca das teclas
da sensibilidade, um diletantismo sui generis, uma redução de Calígula.
Quando Maria Luísa voltou ao gabinete, daí a pouco, o marido foi ter com
ela, rindo, pegou-lhe nas mãos e falou-lhe mansamente:
— Fracalhona!
E voltando-se para o médico:
— Há de crer que quase desmaiou?
Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois
foi sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos,
tal qual a vimos no começo desta história. Hão de lembrar-se que, depois de
terem falado de outras coisas, ficaram calados os três, o marido sentado e
olhando para o teto, o médico estalando as unhas. Pouco depois foram
jantar; mas o jantar não foi alegre. Maria Luísa cismava e tossia; o médico
indagava de si mesmo se ela não estaria exposta a
algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível; mas o
amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os
vigiar.
Ela tossia, tossia, e não se passou muito tempo que a moléstia não tirasse
a máscara. Era a tísica, velha dama insaciável, que chupa a vida toda, até
deixar um bagaço de ossos. Fortunato recebeu a notícia como um golpe;
amava deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custavalhe
perdê-la. Não poupou esforços, médicos, remédios, ares, todos os
recursos e todos os paliativos. Mas foi tudo vão. A doença era mortal.
Nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça, a índole
do marido subjugou qualquer outra afeição. Não a deixou mais; fitou o olho
baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a
uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de
febre e minada de morte. Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe
perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima,
pública ou íntima. Só quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando
a si, viu que estava outra vez só.
De noite, indo repousar uma parenta de Maria Luísa, que a ajudara a
morrer, ficaram na sala Fortunato e Garcia, velando o cadáver, ambos
pensativos; mas o próprio marido estava fatigado, o médico disse-lhe que
repousasse um pouco.
— Vá descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei depois.
Fortunato saiu, foi deitar-se no sofá da saleta contígua, e adormeceu logo.
Vinte minutos depois acordou, quis dormir outra vez, cochilou alguns
minutos, até que se levantou e voltou à sala. Caminhava nas pontas dos pés
para não acordar a parenta, que dormia perto. Chegando à porta, estacou
assombrado.
Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por
alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte
espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que
Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da
amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúmes, notese;
a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas
dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento.
Olhou assombrado, mordendo os beiços.
Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas
então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam
conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e
irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo
essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente
longa.
FIM

Aula II

Canção do Exílio- Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

CANÇÃO DO EXÍLIO
CASIMIRO DE ABREU

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
Os gozos do meu lar!

O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria, não tem;
E este mundo não vale um só dos beijos
Tão doces duma mãe!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava
Lá na quadra infantil;
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
O céu do meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Quero ver esse céu da minha terra
Tão lindo e tão azul!
E a nuvem cor de rosa que passava
Correndo lá do sul!

Quero dormir à sombra dos coqueiros,
As folhas por dossel;
E ver se apanho a borboleta branca,
Que voa no vergel!

Quero sentar-me à beira do riacho
Das tardes ao cair,
E sozinho cismando no crepúsculo
Os sonhos do porvir!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
A voz do sabiá!

Quero morrer cercado dos perfumes
Dum clima tropical,
E sentir, expirando, as harmonias
Do meu berço natal!

Minha campa será entre as mangueiras
Banhada do luar,
E eu contente dormirei tranqüilo
À sombra do meu lar!

As cachoeiras chorarão sentidas
Porque cedo morri,
E eu sonho no sepulcro os meus amores
Na terra onde nasci!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!
Lisboa — 1857

Canto de Regresso à Patria –Oswaldo de Andrade

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os pássaros daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo

Nova Canção do Exílio
Carlos Drummond de Andrade

Um sabiá
na palmeira, longe.

Estas aves cantam
um outro canto.

O céu cintila
sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
e o maior amor.

Só, na noite,
seria feliz:
um sabiá,
na palmeira, longe.

Onde tudo é belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.
(Um sabiá,
na palmeira, longe.)

Ainda um grito de vida e
voltar
para onde tudo é belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.

Canção do exílio
Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá con certidão de idade!

Canção do Exílio
Chico Buarque de Hollanda

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De um palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá

Canção do Exílio às Avessas
Jô Soares

Minha Dinda tem cascatas
Onde canta o curió
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Minha Dinda tem coqueiros
Da Ilha de Marajó
As aves, aqui, gorjeiam
Nào fazem cocoricó.

O meu céu tem mais estrelas
Minha várzea tem mais cores.
Este bosque reduzido
deve ter custado horrores.
E depois de tanta planta,
Orquídea, fruta e cipó,
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Minha Dinda tem piscina,
Heliporto e tem jardim
feito pela Brasil's Garden:
Não foram pagos por mim.

Em cismar sozinho à noite
sem gravata e paletó
Olho aquelas cachoeiras
Onde canta o curió.
No meio daquelas plantas
Eu jamais me sinto só.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Pois no meu jardim tem lagos
Onde canta o curió
E as aves que lá gorjeiam
São tão pobres que dão dó.

Minha Dinda tem primores
De floresta tropical.
Tudo ali foi transplantado,
Nem parece natural.
Olho a jabuticabeira
dos tempos da minha avó.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Até os lagos das carpas
São de água mineral.
Da janela do meu quarto
Redescubro o Pantanal.
Também adoro as palmeiras
Onde canta o curió.
Nào permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Finalmente, aqui na Dinda,
Sou tartado a pão-de-ló.
Só faltava envolver tudo
Numa nuvem de ouro em pó.
E depoies de ser cuidado
Pelo PC, com xodó,
Não permita Deus que eu tenha
De acabar no xilindró.

Aula I

Meus Oito Anos... Casimiro de Abreu

Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !

Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !

Como são belos os dias
Do despontar da existência !
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor !

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar !
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar !

Oh ! dias de minha infância !
Oh ! meu céu de primavera !
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã !

Em vez de mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã !

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta ao peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis !

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo,
E despertava a cantar !

Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !

- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !

Meus oito anos – Oswald de Andrade

Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

Eu tinha doces visões
Da cocaína da infância
Nos banhos de astro-rei
Do quintal de minha ânsia
A cidade progredia
Em roda de minha casa
Que os anos não trazem mais

Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

Ai que saudades... Ruth Rocha

Ai que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais...

Me sentia rejeitada,
Tão feia, desajeitada,
Tão frágil, tola, impotente,
Apesar dos laranjais.
Ai que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Não gostava da comida
Mas tinha que comer mais...
Espinafre, beterraba,
E era fígado e era fava,
E tudo que eu não gostava
Em porções industriais.

Como são tristes os dias
Da criança escravizada,
Todos mandam na coitada,
Ela não manda em ninguém...
O pai manda, a mãe desmanda,
O irmão mais velho comanda,
Todos entram na ciranda,
E ela sempre diz amém...

Naqueles tempos ditosos
Não podia abrir a boca,
E a professora era louca,
Só queria era gritar.
Senta direito, menina!
Ou se não, tem sabatina!
Que letra mais horrorosa!
E pare de conversar!

Oh dias da minha infância,
Quando eu ficava doente,
Ou sentia dor de dente,
E lá vinha tratamento!
Era um tal de vitamina...
Mingau, remédio, vacina,
Inalação e aspirina,
Injeção e linimento!

E sem falar na tortura:
Blusa de gola engomada,
Roupa de cava apertada,
Sapatinho de verniz...
E as ordens? Anda direito!
Diz bom dia pras visitas!
Que menina mais sem jeito!
Tira o dedo do nariz!

Que aurora! Que sol! Que nada!
Vai já guardar os brinquedos!
Menina, não chupe os dedos!
Não pode brincar na lama!
Vai já botar o agasalho!
Vai já fazer a lição!
Criança não tem razão!
É tarde, vai já pra cama!
Vê se penteia o cabelo!
Menina se mostradeira!
Menina novidadeira!
Está se rindo demais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!